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Lançamento do Notícias de Vouzela

Chovia a cântaros quando saiu para as bancas a edição de 1 de Janeiro de 1936, comemorativa do primeiro aniversário do “Notícias de Vouzela”. Numa primeira página a três colunas, dominada por um artigo sobre o Natal assinado por Viriato, o director da altura, Horácio Simões da Silva, ocupava toda a coluna do lado esquerdo para referir os obstáculos que o então quinzenário teve que ultrapassar. “Reconhecemos durante a nossa primeira etapa quanto é difícil satisfazer a todos os paladares, sem ferir susceptibilidades quer políticas, quer religiosas, quer mesmo pessoais”. Era o início da caminhada do periódico que sucedeu ao anterior “Correio de Vouzela” e que acabou por se tornar no principal guardião da memória do que por aqui houve nos últimos 75 anos.

Nesse Janeiro de 1936, Horácio Simões da Silva reflectia as pressões sentidas, vindas das mais diversas sensibilidades que os quase dez anos de ditadura não calaram, num mundo que se preparava para mostrar, mais uma vez, a ferro e fogo, a falsidade das verdades únicas.

Isso mesmo era previsto na rubrica “Rabiscos”, onde se reclamava por “armas, metralhadoras, tanks, aviões, muitos aviões, que são as armas dos países pobres”. Mas para que a estratégia ficasse completa, apelando ao “antigo valor dos lusitanos” e com as lições de Aljubarrota, continuava: “E depois das armas precisamos que a educação nas escolas seja orientada no sentido de cada vez mais os rapazes amarem a nossa Pátria e defende-la, apesar de tudo, não recuando nunca na frente da superioridade numérica do inimigo”.

Menos belicista, mas reflectindo preocupações semelhantes, o correspondente de Vasconha falava da festa em honra do padroeiro da freguesia (São Silvestre) e fazia votos para que “ele conseguisse agora a paz para o mundo revolto, e puzesse termo à guerra italo-etíope e outras”.

Na segunda página, o Dr. Gil Ribeiro Cabral, “Administrador do Concelho” desenvolvia a sua opinião sobre a rede de estradas do concelho e, por entre uma série de notícias mais pequenas sobre nascimentos, baptizados, aniversários, partidas e chegadas, informava-se que Fataunços e Mossamedes estavam prestes a ver a luz (eléctrica), que a Câmara tinha aberto concurso para o lugar de aferidor “com o vencimento anual de 600$00” (3 euros) e que se tinha descoberto o autor de um roubo na capela da Nossa Senhora do Castelo que contou com a conivência do sacristão.

O “Notícias de Vouzela” tinha, então, quatro páginas, dedicando a última a anúncios. Para além do director, apenas eram feitas referências ao editor (José L. Soares de Morais Carvalho) e à tipografia- “Visiense”. Como não podia deixar de ser, era “visado pela Comissão de Censura”. Escrevia Vitorino Campos: “Só quem tenha permanecido fora do torrão onde nasceu ou foi criado e não possua alma expurgada de sentimentos espirituais e bairristas, poderá avaliar o que representa para os seus conterrâneos auzentes, a visita quinzenal de um jornal da sua terra, por mais modesto que êle seja”.

 

Adaptado de “Pastel de Vouzela”